A insuficiência da razão doutrinária. Sobre a falência do estilo evangélico de ser.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

            Há uma crise no modo de ser evangélico. Aliás, o que é ser evangélico? Indo além da compreensão popular, onde evangélico é um termo genérico que engloba as mais diversas tendências de cristianismo não católico, diríamos que por evangélico deve se compreender as igrejas que surgem direta ou indiretamente do modelo norte-americano de missão. Igrejas que se instalaram em terras tupiniquins em diversas levas e momentos. Desde o chamado protestantismo de missão, até o movimento pentecostal... excluo propositalmente o chamado neo-pentescostalismo, porque penso que ele carece de elementos internos que possam identificá-lo como evangélico (tanto do ponto de vista histórico, quanto na perspectiva neo-testamentária... mas isso é uma outra conversa).
            É esse movimento, a que me refiro, que se encontra em crise. Na verdade encontra-se mesmo em estado agonizante. As evidências dessa crise podem ser notadas em várias dimensões: na política, com as bancadas evangélicas envolvidas em todo tipo de corrupção; na ética, com as opções de enriquecimento pessoal e institucional; na moral, com as mais estranhas e por vezes perversas manias e castrações, etc. Contudo, o aspecto da crise que quero focar é o que escolhi chamar de "estilo evangélico de ser".
            Por estilo quero focar um conjunto de comportamentos que guiam a vida (ao menos em sua dimensão religiosa) de centenas de milhares de pessoas. Ah, sim, porque uma das evidências de tal crise é o inchaço que as igrejas evangélicas experimentam, inchaço, aliás, que é sempre sintoma de alguma patologia. Esse estilo de ser chamado evangélico é caracterizado por um conjunto de elementos ou manias como por exemplo o linguajar (uma espécie de evangeliquez - quase um dialeto), o preconceito com relação às diferenças - de credo, orientação sexual, gostos culturais, etc. -, um pessimismo com relação a cultura em suas diversas manifestações, etc.
            Mais especificamente, gostaria de fazer um recorte nesse estilo evangélico de ser, a saber: a excessiva ênfase na razão doutrinária. Esta não toca somente em questões doutrinárias, mas se estende para toda a extensão da vida, operando uma tutela sobre a subjetividade em suas diversas expressões: os afetos, o gozo, a corporeidade... Chegando ao extremo de ditar o que se deve usar ou comer, como se deve namorar ou casar, onde se deve ir ou não ir, etc. Bem, o que de fato quero dizer é que esse vício de tutelar as pessoas tem conduzido homens e mulheres a um estilo de vida, chamado evangélico, que produz um esgotamento de possibilidades e expectativas quanto a sua capacidade de gerar um seguimento livre e saudável de Jesus.
            Para ilustrar esse assalto à subjetividade alheia que o estilo evangélico de ser faz escolhi uma canção do primeiro disco (naquela época dos LPs) da Legião Urbana Baader-Meinhof Blues. A música foi feita num contexto de repressão militar, onde um dos alvos era o domínio da subjetividade. Correndo o risco de cometer incorreções, percebo que há uma semelhança entre o domínio mantido por estados políticos ditatoriais e o estilo evangélico de ser: ambos operam no âmbito do racionalismo doutrinário. Claro que não estou falando nos conteúdos das doutrinas, que nesse caso seriam bem diferentes, mas na forma de agir para o controle das mentalidades, da tutela dos afetos, da interdição da sexualidade, da formatação na forma de crer e nos conteúdos do que se deve ou não crer.
            Em primeiro lugar, o estilo evangélico de ser produz uma artificialidade com relação à própria vida. Alguém que se "converte" é imediatamente convidado/constrangido a se retirar do mundo, uma fuga mundi que passa a ser um valor máximo. Contudo, por detrás dessa assepsia com relação ao mundo, encontra-se um apelo à renúncia de si e à adesão a um outro que não existe de fato, que é artificial. A esse propósito cabe a intuição do poeta brasiliense:

Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio

            Estar cheio de se sentir vazio é a expressão limite de quem se percebe alienado de si, de quem está como que impermeabilizado e não consegue mais sentir o mundo à volta. É ter o corpo quente que pulsa por vida, mas só conseguir sentir a frieza fúnebre de mundos artificialmente produzidos. O resultado disso é uma atuação igualmente artificial. Quem vive artificialmente se relacionará artificialmente com seres concebidos na fria artificialidade. Nas palavras da canção

Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar o próximo é tão démodé.

            Amor é coisa de afeto, de corpo, de face, de olho no olho. O amor não sobrevive em ambientes artificiais. Quando a lógica vigente é a da razão doutrinária, ou seja, do domínio sobre a subjetividade, a relação - que está pressuposta no amor - é inviabilizada. O ordenamento institucional toma o lugar da vitalidade comunitária e, então, o que reina é a norma jurídica. A ideia de justiça assume a dinâmica do amor, o controle assume o espaço da liberdade, os planos e metas ofuscam a emergência da criatividade. Trocar o amor pela justiça é provavelmente o passo mais eficaz para estabelecer o estilo evangélico de ser, sendo também o caminho mais curto para a falência da força transformadora do evangelho. Pois, como o poeta intuiu profeticamente: "Essa justiça desafinada é tão humana e tão errada".
            Mesmo com toda essa força coercitiva, o estilo evangélico de ser encontra-se em franca decadência. Isso se pode notar, dentre outras coisas, no abismo que há entre os comportamentos celebrados no espaço da igreja e aqueles outros que as mesmas pessoas têm quando estão longe dos olhos dos sensores eclesiásticos. Isso tem provocado uma espécie de esquizofrenia, onde as pessoas são condenadas a sustentar uma vida hipócrita (no sentido original, onde hipócrita é aquele que usa uma máscara e está constantemente encenando um enredo que não é o seu de fato). Mas as reações a esse estado de coisas vêm emergindo em todos os cantos: pessoas que não desejam mais sustentar o uso de máscaras, que não suportam mais alienar suas subjetividades, que decidem assumir os riscos da vivência da fé na clave da liberdade vão se afirmando, sem com isso abrirem mão de viver sua vida em comunidade. Homens e mulheres que fazem do refrão da canção o seu próprio hino:

Não estatize meus sentimentos

            Numa valorização daquilo que é básico na tradição protestante, é preciso dizer que não desejamos ter nossa subjetividade estatizada (ou eclesiastizada – igrejada, se preferirem). É o sujeito que se apresenta a Deus e à comunidade; não é a instituição que determina minha existência e fé. Assumir essa prerrogativa de tomar as rédeas da vida nas próprias mãos é a condição fundamental para afirmar um seguimento maduro de Jesus, onde não é a coerção, o medo ou as convenções sociais que estruturam a vida. Assumir a responsabilidade de estar inteiro e livre na presença de Deus e da comunidade é uma necessidade frente ao estilo falido de ser evangélico. Recuperar a primazia de “ser do evangelho” é mais importante que dar manutenção a “um evangélico”. Aos que vivem para tutelar as pessoas - e para as instituições que se estruturam sobre o princípio do furto da subjetividade alheia - dizemos unidos, num brado retumbante:

Pra seu governo,
O meu estado é independente.

Por: Alessandro Rocha

6 comentários:

Cleinton Gael disse...

olá, alessandro.
concordo com o texto e venho também batendo nesta mesma tecla HÁ TEMPOS. mas talvez possamos problematizá-lo um tanto, buscando melhor o início disso tudo. seu texto defende o protestantismo de missão estadunidense como o início do processo, mas não fica muito claro sobre qual processo você fala. pelo menos não ficou para mim. eu concordo com o texto em gênero, número e grau quanto ao "modo evangélico de ser", mas acho que este "modo evangélico", se começa com os missionários estadunidenses, pode muito bem ser diferente do protestantismo europeu, que é de onde viemos de fato. minha questão: será que os protestantes que vieram com a Reforma de Lutero seriam um grupo e os atuais evangélicos um outro? não seria o "modo evangélico de ser" um reflexo do moralismo da sociedade estadunidense, chegado a nós por intermédio do protestantismo de missão?
se eu estiver correto, minha diferenciação entre protestantes e evangélicos encontra bom lugar.
parabéns pelo excelente texto!
há braços...
cleinton.

Peroratio disse...

Alessandro, quanto a essa parte: "Mas as reações a esse estado de coisas vêm emergindo em todos os cantos: pessoas que não desejam mais sustentar o uso de máscaras, que não suportam mais alienar suas subjetividades, que decidem assumir os riscos da vivência da fé na clave da liberdade vão se afirmando, sem com isso abrirem mão de viver sua vida em comunidade", não saberia identificar sua materialidade. Ela pressupõe a desalienação subjetiva de indivíduos que, a despeito disso, permanecem em "comunidade". Não estou seguro quanto à materialidade do fenômeno. Salvo, claro, se um suposto indivíduo "desalienado subjetivamente", rompendo com o "jeito evangélico de ser" permanece, todavia, no grupo, mas, agora, cego, surdo e mudo, já que a comunidade permanece vinculada aos padrões evangélicos de ser, com os quais ele rompeu. Tenho dúvidas se a máscara caiu de fato. Tenho dúvidas se de fato ele está na "comunidade". Não?
Um abraço a todos e parabéns pelo blog,
Osvaldo

Pr Waldyr disse...

Olá Alessandro,

O que me alegra profundamente é ter a certeza, plena de que a Palavra de Deus não falha e atesta-nos que há uma "Igreja viva" organismo de Deus fazendo a diferença na terra. Ela é o Corpo de Cristo, a noiva que está preparada para o arrebatamento que acontecerá a qualquer momento. Em meio a esse grande movimento e turbilhão de contextos que às vezes nos chocam profundamente, há os que ouviram o convite de Cristo e negaram a si mesmos, para se tornarem seguidores do Mestre Jesus. E nessa trajetória, através do esvaziamento total de si mesmos, vivem a prática do amor pleno a Deus e ao próximo. Esses de fato são livres e vivem a vida abundante prometida por Cristo.

Que Deus o abençoe e o faça prosperar fazendo a diferença na sua geração.

Abraços,

Pastor Waldyr do Carmo
Igreja Casa de Oração Cehab
http://casadedoracaocehab.com.br

Jabesmar disse...

Se bem entendi, o autor luta contra aquilo que chamo "viver a fé alheia", ou seja, basear a vida cristã baseada no que outros dizem e não em convicções próprias. Entendo que isto é normal em um novo convertido, mas há crentes antigos que ainda vivem na base de regrinhas ditadas por líderes legalistas.

Como líderes devemos ensinar as pessoas a raciocinarem biblicamente, pois assim quando se depararem com situações que envolvam ética, pecado etc., tomarão decisões baseadas na fé bíblica. Ao ensinarmos a Palavra e não regaras, damos, por assim dizer, ao Espírito Santo condições de trabalhar este conteúdo no cristão fortalecendo-o naquele instante no qual o cristão deve decidir o que fazer mediante as mais várias situações. Uma das recomendações de Paulo a Timóteo foi: "prega a palavra...", mas também diz: "insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina".

Creio que o autor toca em um ponto interessante, mas faltou apontar um caminho para se alcançar um ponto de equilíbrio entre as igrejas que tem verdadeiras listas de regras e aquelas que só estão interessadas em promover entretenimento aos freqüentadores dos quais a maioria é analfabeta de Bíblia

Jabesmar A. Guimarães
www.jabesmar.com.br

Liana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Liana disse...

Olá, Alessandro.
Gostei muito do jeito como escreve.
Acho que somos tão egoístas e acomodados que gostamos mesmo das rédeas e do controle, para não pensar e caso dê errado, ter a quem culpar. Poucos querem tirar a máscara, poucos se dispõem a conviver com os sem-máscaras. Superficilidade e falta de amor, sim.

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